A paixão
«Até então, o coração era uma coisa central mas escondida dentro de nós; uma função trivial exercida algures nas nossas entranhas, mas discretamente; um órgão vital para a circulação do sangue, mas também um musculo repugnante e de forma cónica que pulsa em nós e nos animais. (...) Uma eminência parda em que somos obrigados a reparar a certa altura porque nos passa a doer de um momento para o outro, lancinantemente, a ganhar existência histórica, a crescer, a arder, a cair-nos aos pés. Porque o apanhamos na garganta, a enforcar-nos a voz, porque o seguramos no peito, para evitar que deserte, porque falamos com ele nas mãos, para que creiam em nós. A partir de certa altura, o coração passa a ser uma florinha de estufa que flecte e que murcha à menor aragem, algo que não podemos ignorar porque o sentimos a toda a hora, que se impõe acima de todas as coisas como uma ferida aberta ou um sexto sentido. E, como ele, o telefone. Aquilo que parecia imprescindível apenas para dar recados, encomendar bilhas de gás, ouvir a voz dos amigos, as intrigas dos colegas ou as recomendações dos pais, passa a fenómeno de sujeição. É por isso que o telefone (antigamente as cartas) e o coração se tornam cúmplices tão rapidamente: se um toca o outro vibra, se um se cala o outro sangra. Mas não é tudo, há outro elemento essencial neste processo destruidor ou redentor: o colchão. Sim o colchão. O nosso colchão passa a ser usado não para dormir, mas para desfalecer; são as suspeitas que o telefone lança, os sobressaltos que o coração despede, que nos obrigam a usar a cama não como uma peça de mobiliário que nos retempera as forças todas as noites, mas como uma enxerga onde nos debatemos com a morte numa luta corpo-a-corpo e que só lentamente nos convalesce. O coração, o telefone e a cama: três personagens centrais desta tragédia grega a que chamamos paixão e que tanto arrasta montanhas como nos coarcta as forças.............(...)
Sofrer, duvida, esperar, definhar, soluçar e morrer uma vez por dia, tudo isso faz parte de um bom sofrimento, de uma boa agonia, de uma boa paixão.
Por outro lado, a paixão é o único estado de espírito que nos faz verdadeiramente desvalorizar a morte e esquecer tudo o resto porque o Mundo passa a ser uma só coisa: a casa onde o outro habita, a ponte que nos leva a ele, a estrada que nos ilude...»
Rita Ferro in Cronicas
Sofrer, duvida, esperar, definhar, soluçar e morrer uma vez por dia, tudo isso faz parte de um bom sofrimento, de uma boa agonia, de uma boa paixão.
Por outro lado, a paixão é o único estado de espírito que nos faz verdadeiramente desvalorizar a morte e esquecer tudo o resto porque o Mundo passa a ser uma só coisa: a casa onde o outro habita, a ponte que nos leva a ele, a estrada que nos ilude...»
Rita Ferro in Cronicas

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