Wednesday, March 28, 2007




O olhar triste pela janelda do comboio indiciava que algo não tinha corrido na perfeição...

O sorriso matreiro que a Capital costumava deixar dava hoje lugar a um vazio silencioso e penetrante. Sem sombra de dúvidas, as expectativas devem-lhe ter saído goradas...

A passagem pelas estações de Vila Franca, Santarém e Entroncamento, que normalmente provocam a curiosidade e o sorriso pela proximidade da passagem do comboio às casas e às gentes da terra, ficavam desta vez para trás no regresso tristonho...

O cansaço e a expectativa relativamente ao trabalho tinham-se apoderado de todos os pensamentos dela, não tendo tido sequer tempo para perceber que, mais uma vez, não tinha havido possibilidade de reencontro...

Sentiu-o simplesmente na viagem de regresso...quando o comboio partiu do Oriente e rumou ao Porto pela noite dentro...desta vez o rumo estava traçado...as horas do regresso, os locais de paragem e as companhias da viagem...por muito que ela quisesse, não tinha hipóteses de escolher....era aquele o rumo!!

Como ela, num comboio lotado, muita gente deixava Lisboa...uns com a esperança de voltar, outros com a desilusão do regresso e ainda outros com a esperança de não voltar.....Lisboa é uma cidade de ódios e paixões, de amores e desamores....é uma cidade com demasiadas variedades de raças, gentes, locais, feitios, pronúncias....que não permite que ninguém repare....lá ela passava despercebida...ninguém reparava nas diferenças.....e ela gostava!

Por momentos ela pensou que era lá que estava o seu futuro, que era lá que ia ficar...

Mas o amor ao Porto falava-lhe sempre mais alto. Sabia que as melhores oportunidades podiam estar na capital mas o amor dos amigos e da família gritava silencioso no Porto....

A mui nobre, leal e invicta cidade do Porto apertava-lhe agora o coração.....com força e deixava que a água salgada do interior do corpo escorresse lentamente dos seus olhos....

Como pôde ela alguma vez pensar deixar o seu Porto??!

Às vezes ela sentia que havia locais que tinham um pouco dela, que se identificavam com ela (Cascais, Monte Estoril, Sintra, Lisboa, Alcochete, Costa da Caparica, Montijo, Azeitão, Sesimbra, Cabo Espichel, Cabo da Roca, Colares) e por vezes sentia isso em relação à capital...À forma do seu povo viver....

Cada vez mais a carregada pronúncia nortenha com sotaque do Porto era o bilhete de identidade que usava em Lisboa....ao contrário da ideia que ela tinha anteriormente sobre os lisboetas não gostarem da pronúncia do Porto....foi aos poucos sendo alterada....as viagens que fazia a Lisboa tornaram-se uma constante desde Maio/2005....as ruas, as estradas, os becos, as calçadas, as IC's, as radiais eram o prato do dia de cada viagem que fazia...

Repentinamente, as encruzilhadas da capital tinham-se tornado demasiado simples de resolver....o hábito de circular em Lisboa, com pouco tempo nas deslocações com 8/9 reuniões por dia, fez da cidade e arredores de Lisboa a casa que foi preciso conhecer bem...

É nestas alturas em que o cansaço devido à atenção constante das indicações dos rumos, à preocupação com as reuniões de trabalho, às horas perdidas na A5, no IC 19, na Radial de Odivelas, na Avenida Padre Cruz e na Calçada de Carrixe e ..... em tantos outros sítios, às esperas nos clientes e ao pouco descanso de 2 dias demasiado intensos...é nestas alturas que o comboio se tornou para ela o momento de reflexão...na hora de olhar a janela e ver Lisboa ficar para trás .... e no fundo um pequeno sorriso recuperado na entrada da cidade do Porto ao atravessar o Rio Douro e ver a cidade luz a dar-lhe as boas vindas!

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